Filha é curioso como ao longo da nossa vida cruzam se outras vidas,que ora nos surpreendem ou desapontam nos.
Ontem fiquei tão surpresa ao ouvir uma pessoa falar em paternidade como algo tão sagrado! Surpresa por vir de quem veio...uma pessoa que tantos acham tão doido, por vezes com algum desequilíbrio, com uma vida pouco estável...ele próprio de uma instabilidade grandiosa...mas tão cheio dos verdadeiros valores da vida.
Perguntou me pelo teu avô Domingos e ficou perplexo quando lhe disse que não tenho contacto com ele desde que decidiu deixar de me falar, a mim e a tua tia Inês...dizia: "Não posso conceber a ideia de um pai deixar de falar a um filho seja porque motivo for."
Falou, falou, falou e a indignação crescia sem que eu pudesse dizer uma palavra sequer!
Cheguei a casa já tarde e aquela conversa não me saía da cabeça....surpreendente como alguém que possa ter pouca credibilidade perante aqueles se acham pessoas ditas normais, pode dizer tanta coisa acertada e capaz de trazer ao de cima tantas outras coisas.
Recordei então uma noite em que o teu pai me fala indignado da atitude do teu avô perante mim como filha...senti nesse dia que apesar de não falar do assunto com o teu pai, ele percebia o meu sofrimento e também ele acabava por sofrer, talvez por mim ou apenas por muita indignação,não sei.
Choramos os dois nessa noite e para além de me ter sentido aliviada senti um conforto tão grande nas suas palavras e nos abraços apertados do teu pai, que ao contrário desta noite, consegui dormir em paz.
Sim...esta noite não foi fácil! Toda aquela conversa que não durou mais que 5/10 min. fez me pensar em tanta coisa...pensei o quanto desejei poder dar te um pai como nunca tive, um pai presente que te amasse incondicionalmente,que te educasse e que te fizesse sentir protegida toda a tua vida.
Percebi que falhei...percebi que talvez não consiga me perdoar por ter falhado assim contigo filha. Pior que conhecer um pai pouco presente, desligado e sem qualquer perceção do que é ser realmente um pai, será ser rejeitada à partida por aquele que te deu a vida.
Eu sabia que isto iria acontecer exactamente como está acontecer e poderia ter evitado( tal como era da sua vontade) que nascesses sem um pai...mas estaríamos nós no direito de te privar do que realmente é precioso...a VIDA?!
Não que tenha algum tipo de esperança que algo mude (nunca tive) mas a única coisa que realmente gostaria que se alterasse na tua história, seria saber e sentir que nunca irás sentir na pele esta rejeição.
No meio de todos os pensamentos recordava me da mensagem que a tua madrinha me tinha enviado pouco tempo antes de eu entrar no bar e que transcrevia o discurso do André para ela enquanto viam televisão.
"Olha agora quando a Madalena nascer vai ser como uma filha para nós!
E então, isso é bom ou mau?!
É bom para cuidarmos dela."
E é tão bom sentir o amor que as pessoas já sentem por ti filha...mesmo aquelas que poucas vezes vejo e que até as conheci há pouco tempo, como foi o caso de ontem em que toda a gente me acarinhou e babava ao ver a minha barriga onde tu te preparas para abraçar este mundo.
Hoje fomos ao médico e mais uma vez ouvir o teu coraçãozinho derreteu me mais uma vez e fez me pensar que com pai ou sem pai seremos ambas muito felizes!
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